sexta-feira, 27 de maio de 2011

Filosofia do Gato

           Olho para o meu gato e medito. Medito teologias. Diziam os teólogos de séculos atrás que a harmonia da natureza deve ser o espelho onde os seres humanos devem buscar suas perfeições. O gato é um ser da natureza. Olho para o gato como um espelho. Não percebo nele nenhuma desarmonia. Sinto que devo imitá-lo.
           Camus observou que o que caracteriza os seres humanos é a sua recusa a serem o que são. Eles não estão felizes com o que são. Querem ser outros, diferentes. Por isso somos neuróticos, revolucionários e artistas. Do sentimento de revolta surgem as criações que nos fazem grandes. Mas nesse momento eu não quero ser grande. Quero simplesmente ter a saúde de corpo e de alma que tem o meu gato. Ele está feliz com a sua condição de gato. Não pensa em criações que o farão grande.
            Ele dorme. Nesse momento ele é um monge budista: nenhum desejo o perturba. Desejos são tremores na placidez da alma. Ter um desejo é estar infeliz: falta-me alguma coisa, por   isso desejo... Do desejo nasce a insônia. Não tenho sono porque o desejo não me deixa dormir. Mas para o meu gato nada falta. Ele é um ser completo. Por isso ele pode se entregar ao calor do momento presente sem desejar nada. E esse “entregar-se ao momento presente sem desejar nada” tem o nome de preguiça. Preguiça é a virtude dos seres que estão em paz com a vida.
             Por pura brincadeira escrevi um livrinho sobre demônios e pecados. Os demônios continuam soltos pelo mundo do jeito como sempre estiveram. Só que agora fazem uso de disfarces. Até se rebatizaram com nomes diferentes, científicos. Lidando com os demônios eu usei palavras filosóficas e psicanalíticas de exorcismo. Lidando com os pecados eu usei palavras éticas de condenação.
             Tudo ia muito bem até que cheguei ao pecado da preguiça, que deveria ser condenado. Preguiça é fazer nada. Nossa tradição religiosa nada sabe da espiritualidade oriental do Taoísmo que faz do “fazer nada”, “wu-wei”, a virtude suprema.
             E aí, então, aquilo que deveria ser uma condenação do pecado da preguiça virou um elogio às delícias e virtudes da preguiça.
             Alguém disse que preferia os gatos aos cachorros porque há cães com vocação e profissão policiais, mas não há gatos policiais nem por vocação e nem por profissão. Policiais existem para fazer cumprir e lei, o dever. Dentro de mim, desgraçadamente, mora aquele cão policial a que Freud deu o nome de “super-ego”: ele rosna ameaças e culpas todas as vezes em que me deito na rede.
             Meu gato, na sua imperturbável preguiça, me dá uma lição de filosofia. Não me dá ordens. Ele deve ter aprendido do Tao-Te-Ching que diz que o homem verdadeiramente bom não faz coisa alguma...
Estou velho e quero que me seja dado o privilégio de me entregar à filosofia do meu gato: fazer nada. Com consciência limpa repetir com Fernando Pessoa: “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer...”
             Assim, proponho que se acrescente aos direitos humanos já escritos, um outro, para os velhos: “Todos os velhos têm o direito à felicidade da preguiça”. Pois, como o Riobaldo disse: “Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso...?”
             Assim, “vou descansar meu fardo no chão,
             À margem do rio...
            Não vou mais me preocupar com a guerra...
            Vou por no chão minha espada e meu escudo,
            À margem do rio...?
            Como o está fazendo agora o meu gato, dormindo deitado sobre a minha mesa de trabalho”.

                                                                                      Rubem Alves