segunda-feira, 3 de março de 2014

Aparências

          Estamos vivendo um período chamado de mundo de aparências. Nossa vida está tão corrida que estamos avaliando superficialmente as pessoas, esquecendo a essência...
          Nossos valores estão trocados: admiramos somente pessoas pelo que elas possuem. Endeusando mega-empresários, super-modelos e superstar internacionais... riquezas externas.
          Me admira a quantidade de smartphones de última geração vendidos para pessoas que mal sabem utilizar as ferramentas que o aparelho pode proporcionar apenas para exibir como símbolo de status pagando um valor que poderia ser empregado melhor em outras coisas, e por aí vamos...
          Roberto Shinyashiki explora isso numa entrevista contando um caso que aconteceu: "Eu tinha um sócio que precisava de uma pessoa para a contabilidade e me pediu para fazer a entrevista de admissão. A candidata já possuía duas indicações e na entrevista se manteve quieta e calada, não respondia minhas perguntas... Chegou uma hora e falei assim: - "Fulana" você quer trabalhar aqui na empresa, mas você não fala nada, não responde minhas perguntas... e ela falou assim: - Dr. Roberto o senhor está me contratando para cuidar da contabilidade ou para ficar conversando com o senhor? Eu sei trabalhar em frente ao computador, cuidando dos números, cuidando das contas e as pessoas que me indicaram sabem do meu trabalho... eu não sei ficar conversando... Aí, eu cheguei e telefonei... Gente! Contrata a moça!... E aí a gente vê as entrevistas de hoje e vê: - Ele se comunica bem? Quem indicou?... Olha que loucura: 70% das contratações se fazem através de indicação... e onde as pessoas se conhecem? Dificilmente as pessoas se conhecem no ambiente de trabalho, elas se conhecem nas festas, happy-hours, reuniões sociais... ali ninguém está trabalhando... muitas empresas estão quebrando porque não verificam a essência do profissional contratado. Há a necessidade de outros mecanismos para saber se o profissional contratado está de acordo com a política da empresa, se ela tem valores, amor ao próximo... ou, simplesmente, está voltado para resultados não importando os meios."
           O "mostrar ser feliz" é mais importante que o "estar de bem consigo mesmo", construindo um sentido para sua vida e, neste contexto, é impossível ser alegre o tempo todo. As pessoas para se "mostrarem felizes" compram aquilo que não precisam, vivem de aparências, vivem para impressionar os demais mostrando fotos e alardeando aquisições e viagens.
            Yves de La Taille (professor de Psicologia da USP) também trabalha a superficialidade da vaidade na nossa sociedade. Ele diferencia orgulho e vaidade da seguinte forma. O orgulhoso é orgulhoso não importando as opiniões alheias o que ele acha que é ótimo, é ótimo, se concordarem com ele muito bom, caso contrário pouco importa. O vaidoso precisa de platéia, a ostentação se torna inútil sem aplausos.
            Outro ponto que ele aborda é que a vaidade não tem valor moral, "agir moralmente por vaidade" é um termo que fere o conceito de moralidade.
            Um forte argumento que reforça a nocividade dessa sociedade de vaidade e aparências é a forma que a mídia influencia a infância. Mata-se por roupas de marca e mata-se por simples notoriedade sem um fim específico. Talvez os Big brothers da vida influenciem até aqueles jovens que anunciam a própria morte no Youtube e saem atirando em suas escolas e se suicidam logo em seguida... fica a pergunta: Por que anunciar a própria morte num canal de vídeo? Há algo de estranho nessa atitude...
             E continuamos nessa senda de "se mostrar" sem um objetivo claro... assim como andar com carros 4x4 em pleno asfalto como se estivesse num Rally Dakar.
             E esse defeito monstruoso também se reflete na aquisição de cães e gatos de estimação. Alguns proprietários, pouco se importam com a fidelidade ou alegria. Querem apenas mostrar uma raça exótica e desfilar com eles por aí. Se preocupam mais com a estética do bicho do que com a saúde e bem-estar deles.